O guitarrista Ace Frehley, cofundador e ex-integrante do Kiss, morreu aos 74 anos em decorrência de ferimentos sofridos durante uma queda no mês passado. A informação foi confirmada por sua família em comunicado divulgado neste fim de semana.
Em nota, os familiares afirmaram: “Estamos completamente devastados e de coração partido. Em seus últimos momentos, tivemos a sorte de poder cercá-lo com palavras, pensamentos e orações enquanto ele deixava esta terra. Guardaremos as memórias, o riso e celebraremos a força e a bondade que ele ofereceu aos outros.”
A mensagem também destacou a dimensão de sua perda: “A magnitude de sua partida é de proporções épicas e além da compreensão. Ao refletir sobre todas as suas conquistas, a memória de Ace continuará viva para sempre.”
Reações da banda Kiss e dos colegas
Os companheiros de longa data, Paul Stanley e Gene Simmons, divulgaram uma nota conjunta lamentando a morte de Frehley. “Estamos devastados com a perda de Ace Frehley. Ele foi essencial e insubstituível durante os primeiros e mais formativos capítulos da banda e de sua história. Ele é e sempre será parte do legado do Kiss. Nossos pensamentos estão com Jeanette, Monique e todos que o amavam, incluindo nossos fãs em todo o mundo.”
Com isso, a morte do guitarrista encerra oficialmente um dos capítulos mais marcantes da história do rock, construído por décadas de colaborações, separações e reencontros entre os membros do Kiss.
Infância e primeiros passos na música
Paul Daniel “Ace” Frehley nasceu no Bronx, em Nova York, em 27 de abril de 1951, em uma família de músicos. Aos 13 anos, recebeu uma guitarra elétrica de presente de Natal e, a partir daí, iniciou uma trajetória autodidata. Inspirado por Jimi Hendrix, Buddy Guy, Jeff Beck, Led Zeppelin, The Who e Rolling Stones, passou a tocar em pequenas bandas locais.
Durante a adolescência, recebeu o apelido “Ace” de amigos que o admiravam pela facilidade em fazer contatos. Ainda jovem, abandonou a escola para se dedicar à música, mas retornou mais tarde e concluiu os estudos.
Por volta de 1971, tocava com o grupo Molimo, que assinou contrato com a RCA Records, embora as músicas nunca tenham sido lançadas. Mesmo sem sucesso comercial, a experiência abriu caminho para seu futuro no rock.
Ingresso no Kiss e criação da persona ‘Space Ace’
Em 1972, um amigo mostrou a Frehley um anúncio no Village Voice que buscava guitarrista para uma nova banda. O teste era para Paul Stanley, Gene Simmons e Peter Criss, que formavam um grupo ainda sem nome. Frehley chamou atenção por chegar com um tênis vermelho e outro laranja, além do estilo singular na guitarra. Pouco tempo depois, ele foi convidado a se juntar ao trio.
Em janeiro de 1973, o grupo escolheu o nome Kiss e criou uma identidade visual inspirada em bandas performáticas como New York Dolls e Alice Cooper. Para diferenciar-se, decidiram usar maquiagens e figurinos exagerados. Frehley adotou o personagem “Space Ace”, o guitarrista espacial.
Logo no início, a banda enfrentou resistência na cena nova-iorquina, mas com o apoio do empresário Bill Aucoin, contratado em setembro de 1973, começaram a planejar uma estratégia de ascensão.
Consolidação do sucesso com o álbum ‘Kiss Alive!’
O primeiro disco, Kiss, lançado em fevereiro de 1974, trouxe músicas como “Firehouse”, “Black Diamond” e “Cold Gin”, composta por Frehley. Embora o álbum tenha tido retorno modesto, os shows explosivos chamaram atenção.
Em 1975, a banda lançou o álbum ao vivo “Kiss Alive!”, que impulsionou o grupo ao estrelato. A energia das apresentações e a versão ao vivo de “Rock and Roll All Nite” transformaram o Kiss em fenômeno cultural.
Além disso, a banda passou a explorar o visual como ferramenta de marketing. O logotipo com letras estilizadas e o mistério em torno das identidades dos integrantes se tornaram símbolos de uma geração.
Expansão global e auge nos anos 1970
O sucesso foi consolidado com Destroyer (1976), produzido por Bob Ezrin. O álbum trouxe os clássicos “Detroit Rock City”, “Shout It Out Loud” e “Beth”. As turnês se tornaram cada vez mais grandiosas, com pirotecnia e efeitos visuais.
Nos anos seguintes, vieram Rock and Roll Over (1976) e Love Gun (1977), que marcaram o auge da popularidade. Frehley também começou a cantar, estreando nos vocais com “Shock Me”, inspirada em um acidente elétrico ocorrido durante um show.
Em 1977, o grupo lançou Alive II, que manteve a fórmula de sucesso e incluiu novas faixas de estúdio, como “Rocket Ride”, também cantada por Frehley.
Lançamento do álbum solo e saída temporária do Kiss
Em 1978, cada integrante do Kiss lançou um álbum solo. O disco de Ace Frehley, homônimo, destacou sua habilidade como compositor e instrumentista. O single “New York Groove” se tornou um sucesso e ajudou a fortalecer sua imagem individual.
Entretanto, divergências internas sobre a direção musical e o crescente cansaço das turnês levaram à sua saída em 1982. O guitarrista buscava mais liberdade criativa e decidiu seguir carreira solo.
Desafios pessoais e retorno à música nos anos 1980
Nos anos seguintes, Frehley enfrentou problemas com álcool e drogas. Em 1983, foi preso após um acidente de carro no Bronx River Parkway. Depois de cumprir tratamento e frequentar reuniões do Alcoólicos Anônimos, retomou os trabalhos.
Com a banda Frehley’s Comet, lançou o álbum de estreia em 1987 pela gravadora Megaforce Records. Produzido por Eddie Kramer, o disco incluiu colaborações com Eric Carr e Chip Taylor. A música “Rock Soldiers” abordou seu período conturbado.
O disco recebeu boa recepção comercial e o levou novamente às turnês, mas o grupo se dissolveu alguns anos depois.
Reencontro com o Kiss e nova despedida
Em 1996, Ace Frehley e Peter Criss voltaram ao Kiss para uma turnê mundial de reunião. A formação original gravou o álbum Psycho Circus em 1998, mas Frehley teve participação limitada.
Apesar do sucesso da turnê, novas divergências encerraram o ciclo. Em 2002, Frehley se desligou definitivamente da banda, enquanto Paul Stanley e Gene Simmons continuaram com outros músicos.
Mesmo após a saída, Frehley manteve contato ocasional com os ex-colegas e chegou a ser convidado para aparições especiais, embora nunca tenha retornado de forma permanente.
Últimos anos e reconhecimento internacional
Durante as décadas seguintes, o guitarrista manteve carreira solo constante. Entre 2009 e 2024, lançou cinco álbuns de estúdio e colaborou com artistas como Slash, Mike McCready e Robin Zander.
Em 2011, publicou sua autobiografia No Regrets – A Rock ‘N’ Roll Memoir, relatando bastidores e experiências pessoais. “Nunca mirei baixo. Sempre acreditei que a maioria das pessoas se destrói pelas limitações que impõe a si mesma”, escreveu.
Em 2014, foi incluído no Rock and Roll Hall of Fame como membro do Kiss. Em 2024, lançou o álbum 10,000 Volts, o último de sua carreira.
Morte e despedida
A morte de Ace Frehley ocorreu após uma queda que resultou em ferimentos graves. A família, em comunicado, agradeceu o apoio dos fãs e amigos e destacou o carinho recebido nas últimas semanas.
Desde o anúncio, músicos e admiradores de várias gerações prestaram homenagens nas redes sociais. Muitos destacaram sua importância para o desenvolvimento do rock de arena e para a consolidação do Kiss como ícone mundial.
Frehley deixa a esposa Jeanette, a filha Monique, o irmão Charles, a irmã Nancy Salvner, além de sobrinhos e cunhados.
Legado musical e influência
Ace Frehley é reconhecido como um dos guitarristas mais influentes de sua geração. Sua sonoridade, marcada por solos diretos e riffs criativos, ajudou a definir o estilo do Kiss e inspirou inúmeros músicos de rock e metal.
Além da técnica, contribuiu para a estética visual dos shows, popularizando guitarras com efeitos de fumaça e pirotecnia. Essa combinação de som e imagem se tornou um marco no entretenimento musical.
Com sua morte, o rock perde uma figura decisiva na transição entre o som pesado dos anos 1970 e o espetáculo das grandes turnês dos anos 1980.
































